top of page

Cena Extra: Nigel e Phillipa

Deli, Índia

1822

 

Phillipa estremeceu nos braços de Nigel, lutando para respirar ante o frenesi que sentia. Ele soltou uma risada baixa ao sair de dentro dela, igualmente afoito. 

— Linda... — Ele beijou seu pescoço, devagar. 

Ela sorriu e mordeu o lábio inferior. 

— Angelica bem que me disse que esse óleo de jasmim poderia fazer mágica... 

— E eu ainda consigo sentir seu perfume de lírios mesmo com ele, como é possível? — Nigel subiu o corpo para encará-la. 

Ela encontrou a expressão amorosa do marido, sorrindo de leve. 

— Não sabe como fico feliz em te ver assim, relaxada — Nigel confessou.

Eles se acomodaram no travesseiro, um de frente para o outro. 

— Estou feliz por estar aqui em Deli — disse Phillipa. — Sinto que precisávamos de um tempo longe. 

Nigel ficou em silêncio, seu coração começando a se acalmar dentro do peito. Phillipa o conhecia o bastante para saber que aquela ausência de palavras significava mil pensamentos na mente de seu marido. 

— O que está pensando, Ted?

— Nada. 

Ela apertou os olhos, sem acreditar. 

— Eu só... — Nigel respirou fundo —, queria muito que realizássemos nosso sonho. Ao mesmo tempo, estou um pouco cansado de me sentir triste. Tenho medo de que pense que você não é o bastante para mim. 

Phillipa sentiu uma pontada de tristeza com aquelas palavras. Já estavam casados há quase seis anos, e vinham tentando ter um bebê há cinco. Nunca aconteceu, por mais que seus corações desejassem abraçar um filho. O tempo correu e eles passaram a observar os amigos aumentando suas famílias enquanto a deles permanecia apenas os dois. Com a frustração da situação, Phillipa havia passado por uma fase difícil, um tanto deprimida e triste, ainda que ela fizesse de tudo para não demonstrar a ninguém suas emoções. Mas Nigel não era qualquer pessoa. Não somente era o amor de sua vida e marido, como também seu melhor amigo desde que nascera. Ele conhecia cada parte de seu coração. Um coração que era dele, o que fazia com que aquelas palavras ditas há pouco doessem ainda mais. Foi por isso, inclusive, que ele a surpreendera meses antes com duas passagens para a Índia, para que pudessem visitar Angelica e Dev Beaman e sair um pouco da rotina. Haviam chegado há uma semana de Bombaim, e já conheciam muitos pontos interessantes da cidade. 

— Eu jamais pensaria isso. É claro que não conseguir engravidar me entristece, mas sei o quanto me ama, assim como você sempre vai ser o bastante para mim, meu amor. — Phillipa fez um carinho no rosto dele. — Você pensaria isso ao meu respeito? 

Nigel ficou em silêncio, o que fez com que Phillipa franzisse a testa. 

— Pensaria? — ela voltou a perguntar. 

— Prometi fazê-la feliz e me sinto devastado cada vez que vejo o brilho triste em seu olhar. 

— Meu amor, me perdoe. Não queria entristecê-lo. 

Nigel passou a mão no cabelo escuro e negou com um gesto de cabeça. 

— Você não faz isso. Você me faz feliz. Sempre fez. 

— E você, a mim. 

Ele pareceu um pouco mais convencido. Phillipa respirou fundo e sorriu, abraçando-o. 

— Não vamos pensar nisso agora. Quero apenas aproveitar essa viagem e meu tempo com você. 

Ele assentiu, puxando-a para mais perto. Nigel beijou-a, começando devagar, mas aprofundou o beijo, descendo o toque aos glúteos de Phillipa, apertando-os. 

— Devemos usar mais óleo? — Ele levantou uma sobrancelha, com a expressão safada. 

Ah, sim, Phillipa assentiu. Se dependesse dela, usariam todo o óleo disponível. 

* * *

Duas semanas depois, Phillipa e Nigel acompanharam Dev e Angelica ao abrigo que o duque administrava. Haveria uma festa ali que, segundo Angie, eles usariam não somente para distrair as crianças, mas também comemorar os aniversários de dezembro. 

Phillipa ficara muito impressionada com o trabalho que o casal de amigos desenvolvia naquele lugar, e com a dedicação dos dois por aquela causa. O lugar funcionava atendendo a todo tipo de gente, além de ter um hospital e uma área especial para as crianças órfãs. 

Observando os inúmeros pequenos correndo alegres após comerem um pouco de bolo, Phillipa comentou com Angelica:

— Percebi que a maioria deles fala inglês. 

— Ah, sim. Nós os ensinamos. Me lembro de quando encontramos Manoj e ele não sabia, a comunicação era um pouquinho complicada — a duquesa explicou. Ela e Dev criavam um menininho de agora dez anos que o duque encontrara machucado na rua, quando Angelica e ele se conheceram. — Não sei, sempre penso que, assim como decidimos fazer dele nosso filho, pode acontecer com as outras crianças, então fazemos o possível para facilitar tudo. 

— Há ingleses que acolhem essas crianças? — Phillipa perguntou. 

— Já aconteceu, mas não é frequente. Por isso sempre fazemos festas, procuramos mantê-los ocupados. Assim eles se sentem em família, ou quase isso. 

Phillipa concordou, tocada e entristecida ao mesmo tempo por toda aquela situação. Quando Angelica pediu licença para amamentar a filha caçula, Reeya, ela começou a caminhar pelo lugar, observando o movimento das crianças.

Parou ao chegar ao pátio externo. Uma menininha adorável, de pele marrom, cabelos escuros e longos e olhos castanhos brilhantes, mexia no canteiro de terra, com duas rosas de cabo comprido ao seu lado. Ela parecia muito concentrada na tarefa, o que fez com que Phillipa se aproximasse. 

— Olá — disse ela à menininha, que sorriu. 

— Olá — respondeu a pequena, em inglês. 

— Você fala inglês. 

Ela assentiu. 

— Aprendi aqui.

— Como se chama, querida? 

— Niyati. 

— Ah, mas que nome lindo. Eu sou Phillipa. Pippa, se quiser me chamar assim. Posso me sentar com você? Gosto muito de rosas. 

— Claro. 

A garota observou enquanto Phillipa ajeitava as saias do vestido cor-de-rosa e se acomodava ao seu lado. 

— Por que rosas? — Niyati perguntou, continuando a mexer na terra. 

— Porque eu espirro com as de outro tipo. 

Niyati deu uma risadinha. 

— Meu irmão também espirra. 

— Você tem um irmão? — Pippa se mostrou interessada. 

— Sim, Ravi. Ele. — Niyati desviou o olhar para as crianças correndo no pátio. — Aquele ali, o menorzinho. — Ela apontou com o dedo indicador. 

Phillipa olhou na direção, reconhecendo o menino. 

— Ah, ele é um dos aniversariantes. 

— Sim, ele tem quatro anos. Eu tenho sete, mas meu aniversário é em julho. Mas Lorde Beaman também fez uma festinha para mim. 

Uma pontada de tristeza tomou conta do coração de Phillipa, uma vez que ela se lembrou que ambos eram órfãos. 

— Você... gosta daqui? 

Niyati assentiu, embora se percebesse certa melancolia em seu olhar. 

— Eles são bons e me deixam perto de Ravi. Eu tinha medo de que nos separassem. 

Phillipa sentiu o nó na garganta imediatamente. Para uma criança de apenas sete anos, Niyati já parecia muito madura e sabida. 

— Bem, por que não me mostra como fazer isso? — Ela apontou para a flor com um gesto de cabeça. Era melhor se distrair ou ela começaria a chorar. 

— Quer plantar esta? — Niyati estendeu uma das rosas a ela. — Eu divido, tenho duas. 

Sorrindo, ela deixou que a pequena lhe ensinasse a plantar. E se atrevia a dizer que aquela fora a melhor tarde que passara desde que chegou a Deli. 

* * *

Sentados os quatro na sala de estar do Duque de Rutland, Nigel levantou o rosto para o amigo, que disse: 

— Estou pensando em fumar um charuto. Vamos? 

Nigel concordou, interessado. 

— Claro. — Ele se virou para Phillipa, que estava brincando com Reeya no colo. — Vocês ficarão bem? 

— Claro, meu amor. Estou com essa belezinha. 

Nigel sorriu docemente antes de seguir Dev Beaman corredor adentro. Phillipa encarou o rostinho da bebê e os olhos azuis que ela herdara da mãe, assim como Mia, a mais velha. 

— Acho incrível como suas duas filhas nasceram a mistura perfeita de vocês dois — ela comentou com a duquesa. 

— Sim. — Angelica inclinou o pescoço para o lado, encarando a filha. — Mas a personalidade é a mesma que a de Dev. Na verdade, até mesmo Manoj é parecido com ele nesse sentido, calmo, embora um tanto sarcástico quando quer. 

Phillipa sentiu o coração acelerar com a menção do menino. 

— Como foi para você acolher Manoj, Angie? 

Não que Phillipa não soubesse aquela história, afinal, todos a conheciam. Contudo, ela tinha um interesse a mais naquela pergunta naquele momento específico. Nas últimas semanas, após conhecer a pequena Niyati e seu irmão, Pippa passara uma quantidade de tempo significativa no abrigo, ao lado das crianças. E agora... bem, ela e Nigel partiriam de volta à Inglaterra dali a cinco dias, e somente o pensamento em se despedir dos pequenos em definitivo partia seu coração. 

Ela se afeiçoara sem se dar conta, mais do que imaginaria, e queria levá-los com eles. Ser uma mãe para eles. 

— Foi natural, Phi. Mais do que consigo explicar. — Angelica sorriu. — Eu e ele nos entendíamos mesmo sem falar a mesma língua. Quando me acertei com Dev e decidimos ser uma família, nunca houve dúvida. Tivemos Mia e Reeya depois, mas garanto que o amor que sentimos por Manoj é exatamente o mesmo. 

Phillipa não duvidava nem um pouco. Seu coração acelerou no mesmo instante. 

— Por que, Phi? — Angelica perguntou. 

Ela hesitou. Não sabia exatamente o que dizer. 

— Eu... — Phillipa ajeitou Reeya melhor em seu colo —, não sei como explicar, mas tenho passado tempo com Niyati no abrigo e... 

Phillipa levantou os olhos para a amiga, que pareceu entender. 

— Você... quer criá-la? 

Ela respirou fundo. 

— Eu não sei exatamente, mas não quero me despedir. Nem dela, nem de Ravi. 

— Phi, isso é maravilhoso. 

— Sim, mas não falei nada com Ted ainda. É uma decisão e tanto. Não sei o que ele pensaria a esse respeito, não é algo comum. Mas é que temos tentado há tanto tempo, e eu queria muito aumentar nossa família. Quando penso que essas crianças estão ali, esperando por alguém que as ame, sinto vontade de chorar. 

Especialmente Niyati, que de maneira muito singela contara a história de como ela, Ravi e a mãe deles foram atendidos pelo abrigo em meio à epidemia de cólera, mas a mãe acabou não sobrevivendo. Chegara a dizer que esperava que um dia tivesse uma família de novo, o que fez com que Phillipa a abraçasse para que a menina não visse as lágrimas acumuladas em seus olhos. 

Angelica se emocionou no mesmo instante. 

— Eu pensei o mesmo quando cheguei aqui. Ah, Phi. Seria tão lindo se vocês chegassem a um acordo sobre isso. 

Sim, seria. Phillipa não tinha dúvidas. 

— Isso seria bom para as crianças? Ir para a Inglaterra, uma terra estranha...

— Eu entendo seus medos, mas acho que não podemos deixar que eles nos dominem. Haverão dificuldades, mas... Niyati e Ravi estão no abrigo há tanto tempo esperando alguém que os ame.

Alguém como ela, que estava esperando abraçar um filho também. 

— Sabe o que Niyati significa? — Angelica perguntou. Phillipa negou com um gesto de cabeça. A americana completou: — Destino. — E ela sorriu. 

Phillipa precisou se segurar para não chorar naquele momento. Destino. Quanto significado em apenas sete letras. 

Quanta felicidade também, se ela e o marido concordassem.

— Acho que preciso falar com Ted — disse Phillipa. — Estou ficando desesperada. 

— Faça isso. Eu e Dev lhe daremos todo o suporte necessário. Tenho certeza de que as crianças ficarão nas nuvens. 

Phillipa sorriu. 

Ela esperava que sim. 

* * *

 

Pippa estava muito estranha. 

Nigel se aproximou da cama, onde a esposa já estava deitada e parecia dormir. Subiu no colchão com cuidado para não acordá-la, o que era difícil, tendo em vista o quanto ele estava agitado. 

Desde que passaram a frequentar o abrigo, parecia que algo a incomodava, mas ela não revelara nada a ele, o que também era uma novidade. Entre eles, sempre houvera verdade, mesmo nos anos em que ficaram separados quando ele viajava pelo mundo. Contudo, Nigel desconfiava os motivos daquela mudança de atitude: Niyati e Ravi. 

Aquelas duas crianças estavam ocupando sua mente mais do que o normal, especialmente pela ligação que pareciam ter com Pippa. E com ele também, não negava. Observando a interação de Dev com os filhos, a maneira como ele beijou o topo da cabeça de cada um quando Mia e Manoj entraram no escritório sem aviso mais cedo, Nigel não conseguia deixar de desejar aquilo para si. Uma família maior, com crianças para serem amadas por ele e a esposa. Para receberem a atenção deles e rirem em conjunto. 

Exatamente como vinham fazendo com Niyati e Ravi naquelas últimas semanas. 

Contudo, aquele era um assunto delicado. Por mais que doesse pensar em se despedir das crianças — afinal, eles iriam embora em poucos dias —, sugerir que talvez ele e Phillipa poderiam criá-los poderia ofendê-la. Nigel sabia o quanto ela sofria por não conseguir engravidar, bem como a grande vontade que tinha em ser mãe, assim como ele tinha em ser pai. Mas, se Angelica e Dev acolheram Manoj e o amavam da mesma forma que seus filhos biológicos, será que ele e Pippa não poderiam fazer igual? 

Nigel não sabia o que pensar, nem em como tocar naquele assunto com ela, especialmente agora, que ela parecia distante. A ideia de ir à Índia deveria tê-la deixado mais feliz, e não aflita como ele a observava. 

Que grande confusão. 

— Ted? — Ele a ouviu chamar, e olhou para o lado. Ela estava acordada, então. 

— Sim, querida. 

Phillipa se virou no colchão, ficando de frente para ele. 

— Acho que precisamos conversar. 

Certo, ele estava um pouco mais nervoso agora. 

— O que foi, meu amor? 

Ela hesitou um pouco, pensando no que dizer. 

— Estive muito ressabiada de contar-lhe, mas não aguento mais. Vamos embora na semana que vem, e isso que estou sentindo está me matando. 

Ele sabia! Sabia que havia algo errado. 

— Pippa, pelo amor de Deus, me diga de uma vez. 

— É Niyati — confessou ela. — E Ravi. Os dois, eu... — Phillipa parecia muito nervosa, como há tempos ele não a via. — Ted, quero levá-los para a Inglaterra conosco. Quero que eles sejam nossos filhos. 

Oh. Ele não sabia o que dizer. Não com o impacto daquelas palavras. E com a alegria que preenchia seu coração. Phillipa ouvira seus pensamentos, instantes antes?

— Passamos todas essas semanas na companhia deles, brincando, nos divertindo. Acho que me apaixonei pelos dois, acho que... — A voz dela embargou. — Acho que eles precisam de nós. Não consigo parar de pensar nisso, e observo Angie com Manoj e eu apenas... — Ela chorou um pouquinho. — Eu sinto que encontramos o que estávamos querendo, desejando todo esse tempo. 

Nigel se emocionou também, e fungou um pouco. 

— Eles não têm pais, e nós não temos filhos — Pippa continuou. — Não sei se conseguiremos ter. Talvez, fosse nosso destino nos encontrarmos. Sei que parece loucura, mas eu...

— Eu concordo — Nigel não deixou-a terminar de falar. 

Os olhos de Phillipa brilharam com lágrimas acumuladas. 

— Mesmo?

Ele chorou também, aproximando o corpo do dela. Que alívio era finalmente saber o que Pippa estava sentindo. 

Principalmente quando ela sentia o mesmo que ele. 

— Não tenho dúvidas. Observei vocês juntos, e... não sei, apenas desejei que aquele momento nunca tivesse que terminar. Vamos fazer acontecer, então.

— Teremos dificuldades. Você sabe como são as línguas maldosas, não passaremos ilesos a isso. Nem nós, nem as crianças.

— Enfrentaremos todos. Já fizemos isso antes, eu garanto que protegerei os dois com minha vida — ele garantiu. 

Sim, ela não tinha qualquer dúvida. 

— E não quero que eles se esqueçam de onde vieram nem de quem são. Quero amá-los completamente. 

— Não vão — Nigel garantiu. — Eles serão acolhidos e viveremos em Londres, mas podemos aprender com eles também. Podemos estudar o hindi, as coisas a que estão acostumados. E, daqui a uns anos, voltaremos aqui visitar Dev e Angelica, para que eles passem um tempo em sua terra natal.

Pippa sorriu. Parecia uma ótima ideia.

— Vamos conversar com eles, perguntar se desejam ser nossos filhos, e levá-los para casa — Nigel disse. — Faremos com que dê certo. Estou pronto para amá-los, tanto quanto amo você.

Phillipa riu, umedecendo os lábios. 

— Isso significa que vamos ser pais? 

Nigel assentiu, diminuindo a pouca distância entre eles. Mergulhado nos olhos violeta, ele não teve nenhuma dúvida. 

— Sim, querida. Vamos ser pais. 

Nenhuma frase nunca pareceu tão certa. 

 

* * *

Phillipa nunca estivera tão nervosa em toda a sua vida. Nem mesmo quando se casara. Ela e Nigel conversaram com Dev e Angelica sobre acolherem Niyati e Ravi, e os anfitriões demonstraram uma felicidade sem tamanho com a decisão do casal. Misteriosamente, ainda que não tivessem conversado com a pequena, Phillipa já se sentia uma mãe. Agora, ali no abrigo, observando a menina se aproximar deles, era como se toda a felicidade do mundo dependesse daquele momento. 

— Olá — a menina disse. — Angie disse que queria me ver, Pippa. 

Ela olhou para o marido, que sorriu de lado e assentiu. 

— Sim, querida. Podemos falar com você? Eu e Ted. 

Niyati assentiu, e eles a chamaram para um canto, longe de todos. 

— Queremos falar com seu irmão também — Pippa falou —, mas como ele é muito pequenino ainda, achamos melhor perguntar algo a você primeiro. 

— Tudo bem. — Ela piscou os cílios longos. 

— Você gosta de nós, não gosta? — Nigel perguntou à garotinha. 

— Muito. 

Phillipa sentiu um nozinho na garganta, e conteve-se. Ela não podia desmoronar antes de dizer à menininha tudo que precisava. 

Pegando na mãozinha pequena, ela respirou fundo. 

— Nós também gostamos de vocês. De você e de Ravi. Por isso, eu gostaria de saber... — ela hesitou, sentindo a voz embargar e o coração acelerar. 

Niyati continuou fitando-a com os olhos castanhos, sem desviá-los dos dela. 

— Diga a ela, Pippa — Nigel sussurrou, incentivando-a. 

Ela olhou para o marido rapidamente, antes de continuar:

— Nós gostaríamos de saber se vocês querem ser nossos filhos. 

Phillipa prendeu a respiração tão logo parou de falar. 

Niyati piscou rápido e engoliu em seco, parecendo imediatamente emocionada. 

— Você... você quer ser nossa mami? 

Phillipa não conseguiu aguentar, e sorriu e chorou ao mesmo tempo. 

— Sim, querida. Eu quero ser sua mami. 

— E eu, seu papai — Nigel disse à pequena, com a voz trêmula. — Acha que vocês gostariam de vir para a Inglaterra conosco, para formarmos uma família? 

O queixo dela tremeu, e Niyati começou a chorar. 

— Eu acho. É tudo que eu mais quero. 

Os dois a puxaram para um abraço, acolhendo o corpinho trêmulo de alegria. Phillipa soltou o ar, tentando não perder a compostura, embora seu coração estivesse tão regozijante quando possível. Ali, depois de tantos anos ansiando, ela finalmente tinha sua filha nos braços, enquanto seu filho corria feliz e saudável brincando com as outras crianças. E ela já os amava mais do que qualquer coisa no mundo. 

— Vamos parar de chorar agora — disse Pippa, quando elas se afastaram. Ela limpou carinhosamente o rostinho da menina, cujo olhos brilhavam com lágrimas e encantamento. — Esse é um momento feliz, querida. Vamos sorrir. 

Niyati concordou, olhando de um para o outro. 

— Posso chamar Ravi, mami? — ela perguntou a eles. 

O impacto de ser chamada daquela forma pela primeira vez quase fez Phillipa desmoronar novamente. 

— É claro que pode, mas ele estava brincando da última vez que o vimos — Nigel comentou, ao se dar conta de que ela estava sem palavras. 

— Não, mas ele vai gostar da notícia — a menina falou, de forma animada. — Foi isso que ele desejou em seu aniversário. Ele me contou. 

— Isso o quê? — Phillipa perguntou. 

Niyati abriu o sorriso mais lindo do mundo. 

— Uma mami. E ele vai adorar ser seu filho também, papai. — Ela olhou para Nigel. — Ele quer ser como o senhor quando crescer. Ele me contou também. 

Observando a menina abraçar Ted rapidamente antes de correr para longe, Phillipa voltou a chorar. 

Deus do céu, era perfeito demais para ser verdade. 

— Vem cá, meu amor — disse ele, fungando. 

Nigel a abrigou em seu abraço, acariciando seu cabelo e dando um beijo em sua têmpora. 

Poucos instantes depois, ela tentou se recompor, embora não achasse que conseguiria parar de chorar tão cedo. 

— Obrigada. — Ela encontrou o olhar do marido. — Obrigada por me fazer feliz desde que me entendo por gente. 

Ele sorriu, limpando o rosto úmido dela. 

— Sua felicidade é a minha, Pippa. E agora, da nossa família. 

Ela assentiu. 

— Nossa família. Obrigada pelo presente desta viagem. 

Nigel fez um carinho na bochecha macia. 

— Quem diria, não é?

Mais feliz do que poderia descrever, Phillipa fechou os olhos rapidamente, aceitando a carícia suave. 

Quem diria, de fato.

bottom of page