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Cena extra: James e Clarice/ Liz e Keith

Chelmsford, Inglaterra

1824


James Camden costumava dizer que tinha um olho bom para bons negócios. Ao menos seu instinto nunca havia falhado até então. E ele estava certo, olhando para o ruivo alto em sua frente, de que aquela venda seria um negócio excelente, o melhor que ele faria nos últimos meses.

— Eu gosto de suas peças — o homem comentou. — Esta pulseira é diferente de tudo que já vi.

— Desculpe-me, mas como se chama? — James perguntou ao sujeito.

— Keith MacLogan. — Ele sorriu. — O senhor?

— James Camden. Gosto de tratar os clientes pelo nome. Veja, Sr. Maclogan, estas peças são feitas por mim, um pequeno projeto que desenvolvi junto com minha esposa.

— E o que significa?

James ergueu uma sobrancelha e alcançou um anel trabalhado em aros finos e uma pedra de rubi em seu centro.

— As joias são inspiradas nos contos-de-fadas que lemos aos nossos filhos antes de dormir — o ourives explicou. — Veja, esta por exemplo, é da Branca de Neve.

— E o rubi é a maçã? — MacLogan pareceu impressionado.

— Conhece os contos?

— Tenho três crianças. Conheço mais do que deveria.

James deu uma risada, pois ele se sentia da mesma forma. Bem, nem tanto. Considerando que passara a maior parte de sua vida adulta sem saber ler, ele podia afirmar que tinha uma familiaridade para leitura e um gosto muito eclético, incluindo histórias fantásticas.

— Entendo. Bem, minha esposa também ensina as crianças da vila, então estou rodeado de histórias o tempo todo.

O homem respirou fundo e voltou a analisar o bracelete.

— Este tem uma esmeralda. É inspirado em quem?

— A princesa e a ervilha.

— Claro. — Ele sorriu e deixou a peça sobre o balcão. — Quero levar algo para minha esposa, mas ela não se considera muito princesa.

— É modesta?

Aye, até demais, mas quero especial. O que me recomendaria?

James olhou para as inúmeras joias em sua frente, e tamborilou os dedos sobre o balcão.

— Este colar com a ametista é delicado e fino ao mesmo tempo. Agora, se quiser algo mais… pessoal, posso sugerir isto. — James se abaixou um pouco e pegou uma caixa revestida de veludo. Ele a abriu devagar, tirando de lá um bracelete em ouro branco, uma pequena placa lisa entre as correntes, com um brilhante em cada ponta. — Desenhei isto pensando num significado mais pessoal. Podemos gravar algo aqui, se quiser.

Keith Maclogan sorriu. James sentiu a satisfação crescer dentro de si. Seu instinto não falhava jamais.

— Gosto disso. Bonito e modesto ao seu próprio modo. Em que conto-de-fadas se inspirou para esta?

— Essa é inspirada no “felizes para sempre” — James respondeu. — Cada um vive o seu a sua própria maneira.

O homem assentiu.

—  Genial. Quanto tempo para gravar? Estou de passagem, preciso retornar à Escócia.

— Posso trabalhar nisso agora mesmo.

— Ótimo. — O homem correu os olhos pelo bracelete mais uma vez. — Isso será perfeito.

Era mesmo. Não somente pelo dinheiro, mas porque James tinha muito orgulho a cada vez que uma de suas peças era vendida. Era um projeto dele e de Clarice, um que eles tinham idealizado quando ela precisou ficar em repouso na gravidez de seu primeiro filho. Elas valiam mais do que algumas moedas. Eram praticamente uma materialização das coisas boas que ele e a esposa conseguiram construir juntos.

— E o que devo gravar?

Keith Maclogan sorriu de lado.

— “O amor é suficiente”.


***


— Lizzie? — Keith entrou no quarto do primeiro andar da estalagem em que ele e Elizabeth estavam hospedados.

— Na banheira… — Ele a ouviu cantarolar.

Ora, ora, na banheira? Parecia que ele estava com sorte naquele dia. Ele caminhou até a sala adjacente do cômodo confortável. Keith cruzou os braços e encostou a lateral do corpo no batente, seus olhos correndo pelo corpo nu de sua linda esposa.

— Vossa Graça — disse ele, provocativo.

— Vossa Graça… — Elizabeth sorriu, seus olhos verdes cintilaram ao encontrar os dele.

— Fez isso de propósito?

— Esperá-lo nua numa banheira? — Ela parou para pensar. — Jamais. Não sou assim tão esperta.

Ele riu, deu três passos à frente e se abaixou para ficar da altura dela, o cheiro de lavanda da água fumegante envolvendo-os.

— Trouxe algo para você — afirmou ele.

Elizabeth franziu a testa e tirou uma mecha de cabelo loiro dos olhos.

— Um passeio na vila e você consegue encontrar um presente para mim?

Keith deu de ombros.

— Eu sei, tenho um talento natural. — Ele enfiou a mão no bolso da casaca e tirou um saquinho de veludo dali. — Aqui. Espero que goste.

Elizabeth puxou uma toalha que estava por perto e enxugou as mãos.

— O senhor não se cansa de me agradar, não é?

— Não. Não me canso. — Keith inclinou o corpo e roubou um beijo rápido dela.

A duquesa de Hamilton corou um pouco, e abriu o saquinho de veludo com delicadeza. Ela puxou a peça de lá, seus olhos fixos na joia.

— O amor é suficiente… — Ela murmurou, e seus olhos se encheram de emoção. — Keith…

— Feliz aniversário, meu amor.

Elizabeth buscou o olhar dele, em dúvida.

— Aniversário?

Aye. Eu estava caminhando pela vila e me lembrei que hoje faz oito anos desde que decidimos ser felizes. Realmente felizes.

Oito anos desde que ele aparecera naquela estalagem em que ela costumava trabalhar e declarara seu amor a ela de forma definitiva, sem qualquer receio.

— Oito anos desde que o amor é suficiente. — Elizabeth sorriu.

— Oito anos desde que eu entendi que sempre foi.

— Isto é lindo… — Elizabeth fungou. — Me ajuda a colocá-lo?

Keith foi habilidoso com o fecho minúsculo, e admirou a joia envolver o pulso delicado por um instante. Apenas por um, pois Elizabeth envolveu seu pescoço e puxou-o para si, beijando-o com fervor.

— Entre na banheira — ela ordenou, entre beijos. — Quero que me veja usando apenas esse bracelete. Apenas ele.

Keith sentiu sua excitação crescer imediatamente.

— Você é quem manda, duquesa.

E para tudo que ela ordenou naquela noite, Keith foi muito dedicado a obedecer.


***


Horas mais tarde


James abriu a porta da frente da casa e sentiu imediatamente o cheiro de ensopado.

— Querida?

— Estou na cozinha.

Ele deixou sua bolsa de lado e caminhou até o cômodo cheio de vapor.

— Onde estão as crianças?

— Brincando no quintal. — Clarice sorriu quando ele a beijou na bochecha. — Como foi o trabalho?

— Bem. Vendi mais um bracelete “Felizes para sempre”. — Ele puxou uma cadeira para se sentar. — Foi interessante.

— Por quê? — Clarice mexeu o conteúdo da panela e provou um pouco da comida. — Hum, mais sal.

Ele levou alguns segundos admirando-a, correndo o olhar pela figura cheia de curvas. O cabelo castanho estava preso num coque e ela usava um vestido de dia comum. Absolutamente linda, mais ainda do que quando haviam se conhecido, mais de uma década antes.

— O homem parecia distinto, consegui ver por suas roupas. E ele se impressionou com as peças, fez bem ao meu orgulho.

— Sensato ele, considerando que as peças são lindas. Pode me ajudar com os pratos?

James riu e passou a mão no cabelo, levantando-se.

— Sim, mas foi a frase que ele escolheu gravar que me surpreendeu.

— Qual foi? — Clarice deixou a colher de pau de lado.

— “O amor é suficiente”. Bonito, não é?

Ela sorriu, pensativa.

— Bonito. Uma frase de livro, eu diria.

— Quem sabe…

Ele a ajudou a pôr a mesa e chamou as crianças para comerem. Jackson, Harold e Sophie apareceram na cozinha, todos muito agitados e tagarelas. James estava acostumado àquela rotina. Jackson estava com nove anos, Harold, sete, e Sophie, quatro. Todos eram parecidos com ele fisicamente, embora tivessem puxado a inteligência e perspicácia de Clarice.

Mais tarde naquela noite, James se banhou e colocou suas vestes de dormir, caminhando para o quarto das crianças pronto para colocá-los para dormir.

— Muito bem, qual é a história de hoje? — ele perguntou, já com o livro de contos-de-fada nas mãos.

— Eu achei um livro na biblioteca do tio Tim — Jackson disse. — Tem um desenho legal na capa.

James franziu as sobrancelhas e analisou o exemplar enorme nas mãos no filho. Antes que pudesse perguntar algo, Clarice surgiu sobre seu ombro e falou:

— Jackson, tio Tim sabe que você pegou esse livro da estante?

— Sim, mamãe. Ele estava numa prateleira alta e foi tia Annabel quem a alcançou para mim.

— É Dom Quixote, querida. — James olhou para ela. — Lembra-se?

Ela piscou duas vezes, uma ruguinhas se formou entre seus olhos.

— Se eu me lembro… Ah, sim! — Clarice soltou uma risadinha. — É seu filho mesmo, santo Deus.

— Sabem, crianças. Seu pai aqui aprendeu a ler com este exato livro.

— Verdade? — Sophie piscou os olhos verdes.

— Sim. Seu papai achou que aprender a ler com um calhamaço fosse uma ótima ideia.

— E foi, porque não somente aprendi como conquistei sua mamãe depois.

Clarice revirou os olhos.

— Ora essa, a história não foi assim.

— E como foi? — Harold quis saber.

James trocou um olhar divertido com a esposa, que se acomodou na beira do colchão da mais nova.

—  Devemos contar? — perguntou ele.

— Sim! — Os três pequenos disseram em uníssono, fazendo-os gargalhar.

— Bem — Clarice falou —, é basicamente a história de uma moça apaixonada, e um moça muito turrão que tinha queria aprender a ler.

— Mas e o nome da história? — Sophie pulou no colo da mãe. — Eu gosto de saber o nome.

— O nome… — James passou a pensar, e então disse: — Talvez… “Um amor para Clarice”? O que acha, meu bem?

Clarice sorriu abertamente, e o coração dele acelerou no mesmo instante.

— Eu gosto. Acho que esse é o nome perfeito para nossa história.


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