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Cena extra: John e Audrey

Londres, Inglaterra

1824


Com um suspiro profundo, John Joseph Brown encarou as bestas ferozes em sua frente. 

— Isso é o fim do mundo… — murmurou ele. 

— É só um cavalo, papai. — Kate colocou uma mão no focinho de Hamilton. Bill, o outro animal, estava ao lado, apenas esperando que John tomasse a coragem de montá-lo. — E eles são bonzinhos. 

John continuou a cinco metros de distância dos três — da filha e das bestas —, apenas observando, contrariado. 

— Cavalos se escondem nessa fachada de bonzinhos apenas para nos machucarem depois. 

A jovem de dezoito anos suspirou, balançando a cabeça em negativa. 

— Medroso…

Ora, mas o respeito aos mais velhos havia ficado em casa naquela manhã, ao que parecia. 

John franziu as sobrancelhas e passou a mão no cabelo escuro que já estava ficando grisalho. 

— Sabe, mudei de ideia, querida. Acho melhor que vá cavalgar sem mim.

— Mas você prometeu! — Kate protestou.  

— Não prometi. Disse que pensaria a respeito. Sem contar que o parque está muito agitado. — Ele olhou ao redor, para as pessoas que se aproveitavam daquele dia de sol no Hyde Park. — Acredito que será bom eu observar seu passeio de longe. 

Kate deu de ombros, e falou sem olhar para ele. 

— O senhor quem sabe. Terei a companhia de Jacob, de qualquer forma. 

John voltou a piscar e deu um passo à frente. 

— Perdão, acho que entendi errado. A companhia de quem? — Ele se inclinou um pouco. 

— Jacob Goldolf. Lembra-se dele? Ele esteve no baile de tia Amelia no mês passado. Tia Phillipa nos apresentou e ele me tirou para dançar. 

John cerrou o maxilar e os punhos ao mesmo tempo. É claro que Phillipa fizera isso. 

— Sua tia Phillipa sempre tomando as melhores decisões…

— Ele conhece o tio Nigel. O Jacob. 

— O Sr. Goldolf, você quer dizer. 

— Sim, ele. Parece que quer ser um cientista, também. Mas não de pedras. Algo relacionado às estrelas. 

— E que idade tem esse rapaz? 

— Dezenove. — Kate sorriu. — E ele me disse que está ansioso para a minha estreia na sociedade na semana que vem. Assim teremos mais oportunidade de nos encontrar. 

Ah, mas não teriam oportunidade nenhuma!

John se aproximou de Hamilton e fez uma careta. Obviamente o cavalheiro atrevido estava animado para passar mais um tempo com aquela preciosidade que era sua filha. Kate não somente era linda como a americaninha, mas também talvez a alma mais caridosa e serena que ele conhecia. Tinha puxado isso de seu irmão Nigel porque nem ele nem Audrey costumavam ser os mais calmos do recinto. Contudo, John já fora um jovem excitado um dia. Sabia muito bem onde aquele lisonjeio levaria. E se o homem pensava que seria fácil coquetear sua filha bem debaixo do seu nariz, ele estava muito enganado. 

Era por isso que ele fora contra Kate estrear tão jovem. Dezoito anos, que grande absurdo… deveriam esperar até que ela fizesse ao menos vinte e cinco, embora toda vez que sugeria isso Audrey ria de sua cara e dizia que ele estava sendo ridículo. 

— Vamos cavalgar de uma vez. — John olhou para Bill, seu interior retorcido de terror. — E o senhor, besta feroz, comporte-se. 

— Mudou de ideia? — Kate arrumou o chapéu e as luvas. — Não está mais com medo?

— Medo… — John apoiou o pé na sela e subiu no cavalo. Santo Deus, estava tremendo tanto a ponto de não conseguir segurar as rédeas. — Só a nível de curiosidade, seu pai já resgatou sua mãe uma vez, quando ela foi derrubada por este ser vivo aí. 

Já devidamente acomodada no lombo de Hamilton, Kate voltou a fazer um carinho nele. 

— Veja só, Hamilton. Papai é um herói de histórias de cavalaria. 

John revirou os olhos com a comparação. Eles começaram a se movimentar, John muito atento ao que acontecia ao seu redor, mas mais ainda em sua filha. Somente as mulheres que amava tanto o fariam arriscar sua vida numa atividade tão perigosa como cavalgar. 

— Já que tocamos no assunto, você deveria ansiar algo assim para si — John comentou. 

— Assim como?

— Um herói. Um digno de uma história de Shakespeare. 

Kate deu uma risadinha travessa. 

— Claro, um que tire a própria vida no final da história depois de fazer tudo errado? 

John respirou fundo. 

— Você e sua mãe precisam ler as histórias de novo… Houve um equívoco ali, há uma justificativa para a tragédia. 

— Credo. 

Ele riu. 

— Bem, sem Shakespeare então, mas um homem… honrado. 

— Por que está preocupado com isso? — Kate perguntou e deu um tchauzinho de longe para outro sujeito sobre um cavalo, a alguns metros deles. John apertou os olhos no mesmo instante. 

— É ele? 

— Sim, aquele é Jacob. 

— O Sr. Gilbison — John voltou a corrigi-la. 

A gargalhada de Kate não foi nada elegante. 

— Goldolf, papai. O Sr. Goldolf. 

Que fosse o que fosse, John estaria de olho nele.

— Bom dia! — Kate disse alegremente, assim que o cavalo do moço se aproximou. John o analisou em silêncio. O rapaz era forte para a pouca idade. Tinha cabelos pretos e cacheados, pele escura, olhos castanhos e um sorriso gentil. Tentou lembrar-se dele, mas sua memória fascinante não pareceu reconhecê-lo. 

— Bom dia, milady. Milorde — Ele ficou bem próximo e fez um aceno com a cabeça. — É um prazer conhecê-lo, Lorde Brown. Sou Jacob Goldolf. 

John não sorriu.

— Prazer — disse ele, sério. — Fiquei sabendo que o senhor e Kate cavalgariam hoje. 

— Sim, na verdade, ela comentou que viria com o senhor no outro dia no baile e eu tinha muita vontade de conhecê-lo. Estou com minhas irmãs menores logo ali. — Ele se virou para onde duas garotas de não mais de doze anos estavam. 

John franziu as sobrancelhas. A expressão simpática do sujeito quase parecia sincera. 

— Ah, sim? 

— Sim, sou um grande admirador de seu legado. 

— E por que seria isso? 

— Meu tio trabalhou com o senhor. O velho Sandlers. 

John arregalou os olhos. 

— Sandlers é seu tio? 

— Sim, ele é irmão de minha mãe. Eu conheci seu irmão Nigel quando fui fazer uma visita à Sociedade de Geologia, e tio Sandlers estava comigo. Falamos muito bem do senhor. 

Hum. Não que John se considerasse egocêntrico, mas ele gostou do que ouviu. 

— Interessante. Diga-me o que exatamente vocês conversaram a meu respeito? — perguntou ele, quando os três cavalos passaram a se movimentar. 


***


— Papai gostou dele — Kate afirmou assim que se sentou na beirada do colchão do quarto de Audrey. 

— Como esse menino conseguiu essa proeza tão rápido? — Audrey perguntou à filha, assim que terminou de escovar os cabelos. 

— Como acha? Elogiando-o, é claro. Papai ficou todo lisonjeado. 

— Seu pai não precisa de ninguém para lisonjeá-lo, minha filha. Ele faz isso sozinho. 

Kate riu, e deu de ombros. 

— Bem, acho que ele gostou dele. Ao menos poderei dançar com Jacob sem grandes caras feias durante a temporada. 

— Isso é ótimo. — Ela levantou-se e foi em direção à menina. — Mas lembre-se de que é sua primeira temporada. Jacob é muito gentil, mas você deve estar certa de seus sentimentos antes de aceitar uma corte. 

— Céus, mamãe. Quem está falando em casamento? — Kate perguntou. — Quero apenas me divertir. Se, de repente, eu me apaixonar… bem, somente então conversaremos a respeito. Mas por ora, não se preocupe. Gosto da minha vida. Não quero assumir uma casa, ainda. 

— Essa é minha garota. — Audrey beijou o topo da cabeça dela e observou-a deixá-la sozinha. Não passou muito tempo até o vozeirão de John soar no quarto. 

— Americaninha, temos um problema — disse ele, tirando a própria casaca. 

— Qual é o problema, meu amor? 

— Sua filha cresceu, e ela pensa que sou estúpido. — Ele passou a abrir os botões do colete. — Ainda ontem eu estava tomando chá invisível, e hoje me vejo pensando se um tal de Gilberson estaria apto para cortejá-la. 

Audrey cruzou os braços na frente do corpo e gargalhou. 

— Goldolf, John. É esse o nome dele. 

— Tanto faz. — Ele fez um gesto com a mão. — E sabe o que é pior? Ela pensa que não percebi que eles tentaram me elogiar para me amaciar. Como se eu, sendo quem sou, esperasse por um elogio de alguém. 

Audrey concordou e se aproximou, fazendo um carinho no rosto dele. Seu marido era orgulhoso, mas perspicaz, desde que se lembrava. 

— Imaginem só, acharem que podem dobrar John J. Brown. 

John levantou uma sobrancelha para ela e a beijou. Ela aceitou aquele beijo rotineiro e que ainda a fazia sentir borboletas no estômago, mesmo após quase vinte anos de casamento. 

— Mas falando sério, agora. Devo estar preparado para caminhar ao lado de minha princesa até o altar em breve, não devo? — John fez um carinho no rosto dela. 

Oh, céus, aqueles olhos…

— Sim, deve, mas eu não me preocuparia agora.

— Por quê?

— Porque Kate ainda é muito jovem, e quer se divertir um pouco. 

— Contanto que essa diversão não seja em jardins alheios… Confesso que o tal Jacob me pareceu um excelente rapaz.

— Ficarei de olho nela, é claro. Confio em nossa filha, mas as quietinhas podem ser terríveis. E, se eu perceber que ela está apaixonada, seja por Jacob, ou por qualquer outro cavalheiro, é claro que você será o primeiro a saber. 

John suspirou e esfregou o nariz no dela. 

— Estamos velhos, americaninha. 

— Eu não estou velha! — Ela deu um tapinha no peito dele. — Estou vivida! E ainda pretendo viver muito mais.

Ele sorriu e apertou a mão em sua cintura. 

— Comigo, certo? Mais cem anos ao lado de seu marido charmoso?

E convencido, claro. 

— Mais cento e cinquenta. 

— Hum, parece pouco. 

— Melhor cuidarmos disso então. — Audrey saiu de seu abraço e caminhou até a porta, fechando-a atrás de si. — Me diga, o que é de seu interesse para nos ocuparmos, barão? 

John correu os olhos de cima a baixo por ela e afirmou, com a voz rouca de desejo:

— Você, meu amor. Para todo sempre, meu interesse é você. 



*Se quiserem ler a história de Jacob e Kate, baixe "As filhas do Barão" aqui.

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