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Cena extra: O Natal em Garden's House

Londres, Inglaterra 

Natal de 1841


A neve caía do lado de fora, mas Poppy Noble estava bem aquecida na sala de estar de Garden’s House. 

— Mama, onde devo colocar este enfeite? — perguntou Dorothy, sua filha mais velha. 

A moça de vinte e sete anos acabara de se casar, mesmo quando todos pensavam que isso já não aconteceria. 

A matriarca inclinou a cabeça para o lado e analisou o pinheiro verde. Árvores de Natal haviam se tornado populares nos últimos dois anos, graças às tradições que o Príncipe Regente trouxera da Alemanha. 

— Coloque naquele galho mais alto. — Poppy indicou. 

Sua filha fez o que lhe foi pedido, tomando cuidado para não se desequilibrar. 

— Mãe, onde estão minhas luvas? — Wallace, o caçula, entrou no ambiente, ofegante. 

— Como vou saber, querido? Para que precisa delas? 

— Nós vamos ao pub — disse ele. 

— Nós? 

— Sim, eu e meus primos. 

Ah, Poppy nem perguntaria quais. Eles eram muitos àquela altura da vida. 

— Ao pub? Está nevando muito, meu filho. — Poppy pôs a mão na cintura. Ser mãe de um homem de vinte anos era um tanto demais de vez em quando. 

— Deixe o garoto, querida. — Jasper entrou atrás do filho.

— Quer ir conosco? — Wallace convidou. Ao lado do pai, ele parecia sua versão mais jovem. 

— Eu tenho juízo — Jasper provocou. — Vá de uma vez. 

— Vamos levar seu marido, Dorothy — o rapaz avisou. 

— Theo vai com vocês? — Ela desceu de uma escadinha. — Ora essa, então deixe eu me despedir dele. 

Poppy observou os filhos deixarem o cômodo e encarou o marido. 

— Ele vai sem luvas? — Ela se sentou no sofá. 

— Ele vai sobreviver. Diga-me, como vai a montagem da árvore? — Jasper se juntou a ela, relaxando as costas e passando o braço em volta do corpo da esposa. 

Poppy relaxou a cabeça no ombro dele e olhou para o pinheiro. 

— Está vazio, ainda, mas minhas irmãs prometeram trazer enfeites. 

— Aquele lado está mais cheio. — Ele apontou para a árvore. 

 — Dorothy também achou, mas equilibraremos depois. Vai dar certo. 

Jasper se virou e roçou o nariz no dela. 

— Estou com saudade de você… — Ele a beijou, a mão grande fez um carinho na lateral do rosto de Poppy. 

— O senhor mal saiu do meu lado todos esses dias. 

— E ainda assim… a paixão fala mais alto. 

A língua macia buscou a dela, e Poppy se entregou. Mergulhou no beijo maravilhoso, um suspiro saiu do fundo de sua garganta. 

— Hem. Hem. 

Ambos pararam o que estavam fazendo e encararam Sophia, a terceira filha, parada em suas frentes com um caderno nas mãos. 

— Pois não, Sophie. — Jasper ajeitou-se nas almofadas. 

— É interessante observar vocês. — Ela abriu o caderno. — Digam-me: não se cansam um do outro mesmo após vinte e tantos anos de casados? 

Poppy e Jasper se entreolharam, divertidos. 

— Não — responderam ao mesmo tempo. 

— Na verdade, eu acabei de falar para sua mãe que estava com saudades dela. — Jasper piscou para Poppy. 

— Como isso é possível? — Sophia apoiou o lápis no queixo. — Se importam se eu lhes fizer algumas perguntas? 

— Perguntas? — Poppy franziu a testa. — De novo?

Sua filha era observadora, e adorava coletar dados. Tudo começara quando ela era muito jovem, e passou a observar as formigas trabalharem no jardim. Ultimamente, no entanto, Sophia parecia estar interessada em observar casais. Dorothy passara por um interrogatório e tanto na semana anterior, assim como Phillip Wallace e Primorose, que haviam se casado meses antes numa escapadela para Gretna Green. 

— O que quer saber, pequena? — Jasper cruzou uma perna sobre a outra. 

Sophia sentou-se na frente deles, no tapete macio, e arrumou as saias do vestido. 

— Quero saber como essa… história de amor começou. Quem se apaixonou primeiro? Como foi e o que sentiram ao perceberem que se amavam? 

— Isso pode demorar — Jasper comentou. 

— Não estou com pressa. 

— Tudo bem. — Poppy suspirou. — Quem sabe ao saber da história completa você não tenha mais juízo do que sua mãe?

— Por quê? — Sophia questionou, intrigada. — Uh, é uma história escandalosa? 

O casal riu. 

Ah, era. Mas também, quem naquela família conseguiu escapar de um escândalo? Poppy não se lembrava de ninguém. 


***


— Duas, três… — Iris Mazza arrumou os óculos sobre o nariz. — Dez garrafas. Paolo, temos dez garrafas! — ela gritou. 

— Aspeta! — A voz grossa de seu marido saiu abafada. Ele estava agachado perto das caixas distribuídas no chão da cozinha de Garden’s House. — Temos mais oito aqui. — Ele se levantou, limpando os joelhos empoeirados. 

O homem se aproximou dela e encarou as garrafas sobre a mesa. 

— Acho que é suficiente — disse ele. 

— Eu acho que sim. Ainda temos uísque e brandy. 

— Sim, mas esse vinho é da nossa safra nova. 

Iris sorriu, pois ela tinha plena consciência daquele detalhe. A safra “Bella mia” fora batizada em sua homenagem, já que fora Iris que incentivara o marido a produzir uma bebida diferente para comemorar a virada da década. 

Casados há mais de vinte anos, ambos viviam em Florença na companhia dos dois filhos mais novos, Otto e Giuseppe. Matteo, o mais velho, se casara com uma amiga de infância três anos antes e não se juntaria aos Spencers naquele Natal, mas mandara suas lembranças a todos. 

A vinícola de Paolo prosperou a ponto de ele se tornar um dos homens mais ricos da cidade. Contudo, seu marido não era muito diferente do lacaio charmoso que ela conheceu um dia. O homem estava grisalho, agora, parara de fumar com frequência após os pedidos de Iris e ficava mais bonito a cada dia que passava. 

— Não se preocupe, querido. Tenho certeza de que todos vão aprovar seu vinho. 

— Espero que sim. — Ele agarrou a cintura da esposa e a puxou para si. — Minha musa inspiradora para a safra merece toda a aprovação possível. 

Ela corou e sorriu. 

— Não me deixe sem-graça… 

— Você é maravilhosa! Consegue acreditar que no próximo Natal seremos avós? 

Não, ela ainda não conseguia. Iris mal caíra em si de que seus próprios filhos tinham crescido.

— Matteo vai ser pai… quem diria que o tempo passaria tão rápido? — Ela suspirou. 

Paolo fez um carinho no cabelo dela, igualmente reflexivo. 

— Ainda me lembro da primeira vez que entrei nesta casa. Tão diferente… cheio de ressentimento e vingança — ele comentou. 

— Você ainda pensa naquilo? — Iris quis saber. 

— Às vezes. Geralmente, quando me sinto totalmente feliz. Olho para você, para a família que construímos. Olho para os nossos meninos, para Matteo formando sua própria família. As coisas poderiam ter sido tão diferentes se nossos caminhos não tivessem se cruzado, bella mia. Que homem de sorte eu fui, mesmo tão errante. 

Iris sentiu o peito se encher de ternura. Ela desenhou com a ponta do dedo na pele dele, nas marcas de expressão ao redor dos olhos que a fitavam sempre com amor e encantamento. 

— Eu tenho orgulho de nossa história. De tudo que trilhamos até aqui. 

— Você é feliz ao meu lado? 

— Imensamente. — Ela sorriu, com certeza. — Todos os dias. 

— Ótimo. Pois eu vivo para fazê-la feliz. Sabe disso, não sabe? — Ele aproximou seus rostos. 

Iris assentiu e mergulhou no beijo do marido. Paolo firmou a mão em sua cintura e a deslizou pelo corpo dela, mais robusto àquela altura da vida. Iris jogou a cabeça para o lado e permitiu que ele beijasse a curva de seu pescoço. 

Ele teria ido além, não fossem as vozes masculinas que Iris conhecia muito bem se aproximarem. 

Ambos os Phillips (o pai e o filho) pararam na entrada do cômodo e cruzaram os braços na altura do peito. 

— É o destino de minha vida pegá-los em situações indecorosas? — o lorde da casa perguntou. 

Paolo e Iris riram. 

— Não exagere, Phillip. Você já deveria estar acostumado. — Ela saiu dos braços do marido e se aproximou do sobrinho. — Phillip Wallace! Como você está lindo, seu fujão apaixonado! 

O sobrinho sorriu e aceitou o abraço dela. Era a primeira vez que Iris o via como um homem casado. 

— Pelo jeito, todos continuam falando dessa história… 

— O senhor fugiu para se casar na Escócia. — Paolo também o abraçou. — Vamos falar sobre isso por anos! 

— Isso me consola, tio Paolo. — Phillip Wallace levou a mão à nuca. 

— O que o levou a tamanha decisão atrevida? — a pergunta veio de Iris. 

— Amor. Eu e Primrose nos amamos e não quisemos esperar por formalidades ou bobagens. 

Phillip pai revirou os olhos. 

— Um tolo apaixonado e emocionado, este senhor. 

— Mesmo, Spencer? — Paolo provocou. — Curioso… a quem será que ele puxou?

— Uh! Eu sei! — Iris levantou a mão, fazendo todos rirem em conjunto. 


***


Com os olhos fechados, Phillip Spencer tentava lidar com aquela incômoda dor de cabeça. 

— Papai, o senhor está me ouvindo? — Celia, sua terceira filha, perguntou. 

— Estou. 

— Por que está de olhos fechados? 

Phillip os abriu. 

— Estou com dor de cabeça. 

Ela segurou uma risada. 

— Ah, sim. Imagino que, além dos inúmeros documentos em sua frente, Walter tenha passado aqui mais cedo para discutir seus planos de negócios. 

Sim, era isso. Walter, seu segundo filho, era tão atrevido e entusiasmado que Phillip às vezes se perguntava a quem o menino puxara. 

— Ele quer viajar — Phillip disse. 

— Para investir em ferrovias — Celia afirmou. — Ele me contou. Lidia achou muito esperto da parte dele. 

Que Deus o ajudasse. Seus filhos eram perspicazes demais para seu bom juízo. 

— Eu concordo, mas temos que ter prudência com investimentos. Eu mesmo já tive muitas perdas na juventude. 

— O senhor não vai permitir que ele invista? 

— Eu acho que ficará tudo bem, mas mandei que conversasse com Flavian, também. Ele é o duque. 

— E quanto à viagem para a casa de Prim? Eu e Lidia podemos ir? — Ela sorriu e juntou as mãos na frente do corpo. 

Phillip Wallace, o mais velho, se casara com Primrose Maclogan no último ano. As garotas fizeram amizade e, vez ou outra, suas filhas passavam uma temporada na casa do irmão. 

— O que sua mãe disse? 

— Mandou que perguntássemos ao senhor. 

— Certo, então confirmem com ela. 

Celia franziu as sobrancelhas loiras. 

— Mas se ela disse…

— Querida, pergunte à sua mãe. O que ela disser, está bem para mim. 

Celia assentiu. 

— Tudo bem. Vou falar com ela, Lorde Spencer. 

Phillip observou a filha deixá-lo sozinho e relaxou o corpo na cadeira. Massageou uma têmpora, levantou-se e foi até o aparador servir-se um pouco de uísque. Bebeu um gole largo e respirou fundo. Ah, bem melhor. 

— Sua Graça está irritado! — Jack, seu primo, de repente surgiu no cômodo. 

A família inteira estava reunida em Garden’s House para passarem o Natal juntos. Poppy começara a montar a árvore, Iris e Paolo haviam trazido o vinho de Florença, e Jasmine e Handel se encarregaram de preparar uma surpresa para os demais. 

— Por quê? — Phillip perguntou. 

Jack se aproximou e serviu o próprio copo. 

— Ele disse que o senhor está o enchendo de serviço no Natal. 

— A culpa é de Walter. — Phillip deu de ombros. — O homem é o duque, que dê alguns conselhos. 

— Ao seu filho. 

— Sobre dinheiro. Sabemos que eu cometi alguns erros quando jovem. Prudência nunca é demais. — Jack riu ao beber um gole. — Sem contar que estou cansado também. Reunir a família sempre vem com um bônus de inúmeras perguntas. 

— Nem me fale. Fui ao ringue conferir como estava tudo. Não abriremos até cinco de janeiro. 

— Ótimo, todos precisamos de um descanso. 

— Phillip, querido! Temos muito trabalho a fazer! — Magnolia, sua esposa, surgiu no cômodo. 

Jack e ele se entreolharam. 

— Essa é minha deixa. — Jack piscou, sorriu para Magnolia e os deixou sozinhas. 

— Diga, meu amor. — Phillip deixou o copo de lado. 

— Já decidi o menu para o jantar de hoje. — Ela se aproximou. Ele admirou a beleza dela, os cabelos presos num coque baixo, os olhos de mel sempre muito brilhantes. — A sobremesa também, embora eu tenha escolhido duas, para agradar gregos e troianos. Tia Lidia vai me ajudar. 

— Certo… — Ele massageou um dos ombros dela. 

— Poppy vai terminar a árvore, ainda não sabemos o que Jasmine preparou. Sua mãe está tirando uma soneca. 

— Certo…

— Lidia e Celia vieram me perguntar se pode passar a temporada com Prim e Phillip. Eu permiti, pois imaginei que você concordaria comigo. 

— A senhora é perfeita. — Phillip a puxou para si. — Eu já lhe disse isso? 

— Algumas vezes durante a vida. — Ela sorriu. — Está tudo bem? Você parece cansado. 

— Estou. Quer me mimar? — Ele deu uma piscadela. 

Magnolia suspirou de um jeito doce e o beijou. Ah, mas aquilo, sim, era bem melhor. 

— Desculpe-me — ela disse. — E eu aqui, tagarelando. 

— Não há problema. Sua presença me acalma, coelhinha. 

Magnolia acariciava o tecido do colete dele ao ouvirem as duas batidas na porta. 

— Pai? Podemos conversar? — Phillip Wallace surgiu no cômodo ao lado de sua esposa. 

Lorde e Lady Spencer o encararam. 

— Pois não, queridos — Magnolia disse. 

Os dois jovens pareciam um tanto perdidos. 

— O que houve, filho? — Phillip quis saber, alarmado. 

— Eu e Prim pedimos uma consulta ao doutor de última hora. 

— Ao doutor? — Magnolia levou a mão ao coração. — Por quê?

— Bem… — Primrose sorriu e seus olhos se emocionaram. — Eu estava desconfiada, mas agora temos certeza. Estou grávida. 

Foi como se o coração de Phillip dobrasse de tamanho. Magnolia abraçou a nora fortemente, chorosa, mas ele permaneceu concentrado no rosto do filho. 

— Você será pai, garoto? 

— Sim — Phillip Wallace confirmou. — E o senhor será avô de um coelhinho — brincou ele. 

Phillip o puxou para um abraço forte. Ele fez o mesmo com a nora, que também chorava àquela altura.

— Meus parabéns, Primrose. Vocês nos deram o melhor presente de Natal que poderíamos pedir. — Phillip fungou. 

Assim que voltaram a ficar sozinhos, Magnolia mergulhou o rosto no peito dele, praticamente brilhando de felicidade. 

— Acho que sua dor de cabeça passou, não? — ela perguntou. 

— Nem me lembro dela. — Phillip fitou-a, com carinho. — Tudo que sinto é amor, meu bem. 

Mas sempre fora assim, desde que ele entrara com o coração partido em um bordel muitos anos antes, e aquela mulher mudara sua vida para sempre. 

 

***


— Acho que há algo que vocês deveriam ver. 

Jack afastou o rosto do de sua esposa e, frustrado por não conseguir beijá-la naquela casa cheia de gente, olhou para a filha mais velha parada na porta da sala de visitas de Garden’s House. 

— Pois não, Melissa? — Abigail suspirou, com o rosto corado. 

— Benjamin está jogando charme para a amiga de Prim. 

O patriarca revirou os olhos. 

— Sério?

Sua filha, uma cópia de Abigail, assentiu. 

— Foi meu marido quem me alertou, então estou passando o recado. Caso queiram verificar, Benjamin está com ela tomando um pouco de brandy na biblioteca. 

Ela sorriu e os deixou sozinhos. Jack encarou Abigail e passou a mão nos olhos. 

— Devemos?

— Hum… — Ela pensou por um instante. — Seu filho sabe ser atrevido. 

— Se ele estiver flertando com a moça, não vejo motivo de perigo. 

Aurora Campbell — a moça — era amiga de infância de Prim e filha de um dos melhores advogados da Escócia, segundo as informações que Jack ouvira de Handel. 

— Talvez seja prudente vigiarmos. 

— O garoto não vai aprontar com a casa cheia e bem debaixo de nossos narizes, querida. — Jack voltou a puxá-la para si. — Se fosse Barney, eu até me preocuparia, mas sendo Benjamin…

— Barney nos dispensou para ficar com a tal viúva! 

Sim, Jack ficara sabendo. O caçula era como ele antes de se casar — um devasso sem-vergonha. Contudo, já fazia alguns meses que o rapaz se envolvera com uma viúva da cidade e Jack notara um comportamento distinto nele. 

— Quem sabe ele não toma juízo? — Jack deu de ombros. 

— O senhor está mesmo muito relaxado. — Abigail pôs uma mão na cintura. 

— Eu? 

Ela concordou. 

— Sim, o senhor. Mal perdeu a paciência com Gustave, que tentou lhe abordar quando chegamos em casa. 

— Seu primo estava embriagado e tentou uma abertura para me pedir dinheiro. — Jack bufou. — Aquele patife não aprende nunca. 

E estava destruindo o ducado que herdara de Benjamin sem qualquer hesitação. Jack conseguiu ver a chateação cintilar no olhar de Abigail, que sempre se aborrecia quando pensava naquele assunto. Mas como não o faria, se era o legado da família dela que estava sendo prejudicado? A situação era triste, principalmente porque Gustave era o último dos herdeiros dos Waldorfs. Como ele nunca se casara nem tivera filhos, o título morreria com ele, assim como aquela administração lamentável. 

— Deixe os problemas de lado, mulher. Agora me dê atenção e me deixe enchê-la de amor. 

Ele mergulhou no pescoço da esposa e a fez rir. Aquele som, sim, era o que Jack queria ouvir. 

Pronto para atacá-la, Jack sentiu a excitação crescer e sussurrou no ouvido dela: 

— Por que não vamos para o quarto, Mel? Assim não seremos interrompidos. 

— Aceito sua proposta. — Abigail se levantou e o puxou pela mão. 

Caminharam murmurando indecências um para o outro até encontrarem Benjamin no corredor. 

— Pai, eu…

— Não agora! — Jack continuou a caminhar, assim como Abby. 

— Mas eu apenas queria…

— Faça o que quiser, garoto. — Jack voltou a dizer. 

— Esperem, mas por que a pressa? — Benjamin franziu a testa e os alcançou. — Custa responderem a uma pergunta?

— Querido, o que você quer? — Abigail quis saber. 

— A srta. Campbell vai tomar chá com Primrose, então vou até o pub com os meus primos. Bart chegou há pouco e vai comigo. Eu apenas queria avisar. 

— Bebam por mim. — Jack deu um empurrãozinho em Abby. — Agora suma!

Benjamin abriu a boca para reclamar, mas parou, fazendo uma careta em seguida. 

— Ah, pelo amor de Deus. Vocês não vão…? Não, não. Eu não quero saber. — Ele começou a se afastar. — Vou ter que beber duas doses depois desse trauma! 

Abigail e Jack gargalhavam ao observarem o filho sumir de vista. 

— Oh, céus. O que Benjamin vai pensar de nós? 

— Que somos danados, o que é a verdade. — Jack piscou para ela. — Agora, vamos, meu amor. Sou um homem ansioso e com uma missão especial esta tarde. 

E ele nunca falhava em suas missões. 

Especialmente se Abigail estava incluída. 

***


Por todos os santos, que homem insuportável ela escolhera para ser seu marido! 

— Meu Deus do céu! — Jasmine disparou, pressionando as têmporas. 

Handel a encarou, irritado. 

— Minha reclamação lhe incomoda? 

— Você sabe que sim! 

— Você estragou a surpresa que preparei!

— Contei que soltaríamos fogos para sua filha! Ela contou ao pavão filho, que contou para Phillip Wallace, que achou por bem contar à minha mãe! 

— Quem contou primeiro? — Handel apertou os olhos. — Quem?

— Por que não briga com Gwen? Por que eu tenho que ouvir os seus lamentos? 

— Ah, mas todos ouvirão meus “lamentos”, querida esposa. Pois farei questão de procurar cada um e lhes agradecer por arruinarem o que passei semanas planejando! 

Ele saiu do jardim de inverno pisando duro e com uma carranca e tanto. Jasmine suspirou, sentindo um pouco de dor de cabeça. Ela deixou os arranjos florais que preparava de lado e marchou até dentro da casa. Encontrou Gwen, Lady Georgia, Primrose e Aurora Campbell reunidas para o chá. 

— Boa tarde, meninas. Posso ser inconveniente e pedir licença para falar com minha mãe e minha filha um instantinho? — Ela sorriu para as duas moças. 

— O que foi? — Lady Georgia tirou o guardanapo do colo e a seguiu quando Jasmine fez um gesto de cabeça. Gwen fez o mesmo, sem parecer nem um pouquinho afetada. 

— O que eu fiz? — perguntou. 

— Que bom que sabe que fez algo! Seu pai está possesso, pois a notícia de que soltaremos fogos após o jantar se espalhou! Eu somente contei a você! — Jasmine apontou para a filha. 

— Handel é um linguarudo! — Gwen resmungou. 

— Ora, mas o Handel Sênior é mesmo muito nervosinho, não? — Lady Georgia fez um gesto com a mão. 

— Ele queria surpreender a todos! Passou semanas planejando…

— Então, a senhora deveria ter guardado segredo, mamãe — Gwen apontou. — Coitadinho de meu pai. 

Jasmine revirou os olhos fortemente. 

— Quanta patifaria…

— Querida, se meu genro quer que finjamos costume, fingiremos costume. 

— Ele não quer nada disso…

— Pois então, por que meu chá está esfriando neste momento? — Georgia pôs a mão na cintura. 

Jasmine soltou o ar e liberou a mãe e a filha para voltarem para a mesa. Realmente, a fofoca estava feita e não adiantaria de nada resmungar com um ou com outro. O que ela precisava fazer — mais uma vez, talvez a milésima naquela vida —, era se desculpar com o marido por ter falado demais. 

Sem esperar nem mais um instante, Jasmine subiu as escadas em direção ao quarto em que estavam. Encontrou Violet no corredor, que sorriu para ela. 

— Problemas? — sua melhor amiga perguntou. 

— O pavão abriu as penas. 

— Ah, sim. Suponho que o cacto tenha algo a ver com isso.

— Sempre — Jasmine admitiu. — Verei se consigo amansar a fera. 

Violet riu e concordou. 

— Seria uma pena que ele estivesse bicudo na hora do jantar. Especialmente com a queima de fogos. Que luxo! 

Oh, céus. Todos já estavam mesmo sabendo.

— Vou atrás dele. Vejo você mais tarde. 

Elas se despediram e Jasmine seguiu seu caminho, até entrar no próprio quarto. 

Handel estava deitado na cama, vestido e de barriga para cima. Jasmine se aproximou e deitou-se ao lado dele, encarando o teto. 

— Pavãozinho… — ela disse, após um instante de silêncio. 

O som que saiu de seu marido foi como um resmungo. 

— Meu amor…

— O quê? — ele perguntou, extremamente mal-humorado. 

Jasmine se virou de lado e apoiou a mão na lateral do rosto, olhando para ele. 

— É uma verdade que todos já estão sabendo dos fogos. 

— Eu sei que estão. 

— E é uma verdade que eu não deveria ter contado para Gwen, mas não foi minha intenção arruinar sua surpresa. Não pensei que as crianças fossem dar importância a isso a ponto de saírem espalhando a notícia. 

— Querida — Handel se virou para ela —, as crianças são uma mistura de você e de mim. É claro que elas abririam a boca. 

— Perdoe-me — Jasmine piscou lentamente, com todo seu charme. — Eu cometi um erro, mas não quero vê-lo emburrado hoje. 

Handel deu de ombros, visivelmente mais relaxado. 

— Tanto faz. 

Jasmine sorriu. Como ele era irritante…

— Me dê um beijo — pediu ela, se aninhando a ele.

Não demorou muito para que Jasmine sentisse o toque dele deslizando por seu corpo, maravilhosamente ansioso. 

— Sua terrível… A senhora me tem nas mãos, mas saiba que ainda estou aborrecido. 

— Eu entendo. — Ela subiu com beijou na linha da mandíbula dele. — E concordo. Mas e se nós deixarmos esse pequeno imprevisto de lado e nos concentrarmos no que está acontecendo agora?

Handel buscou o olhar dela e acariciou o cabelo loiro. 

— E o que está acontecendo agora, minha linda? — ele quis saber. 

Jasmine curvou os lábios e sentiu o coração acelerar. 

— Estou sorrindo para você. Porque…?

Ele imitou o gesto, esfregando o nariz no dela. 

— Porque eu amo seu sorriso. 

— Exatamente. 

— E eu amo você — ele complementou. 

Não que fosse necessário. Ela sabia que sim. 

Sempre soube.

***


Flavian tirou os olhos da pilha de documentos assim que ouviu a porta do escritório de Garden’s House se abrir. 

— Com licença, Vossa Graça. — A duquesa se aproximou. Ela adorava provocá-lo com formalidades. 

— Diga-me que veio me resgatar, coração. 

— Posso fazer isso — Violet disse. — Percebi que não o vi o dia todo. 

— Phillip mandou Walter pedir conselhos ao duque. Estive com o garoto pela maior parte da tarde discutindo investimentos e finanças. Hoje é Natal, pelo amor de Deus. 

Violet soltou uma risadinha e sentou-se em seu colo. 

— Meu amor, Phillip tem dois meninos. Não custa ajudá-lo de vez em quando. 

— Eu sei, eu sei. — Flavian fez um carinho na pele do pescoço dela. — Como estão as meninas? 

— Lucia está tirando uma soneca. Patricia e Emma foram caminhar no jardim, e Claire está… adivinhe?

— Tocando piano?

— Errou. Está tocando o violino. 

Flavian sorriu. Claro que sim. Todas as suas três filhas tocavam algum instrumento, mas nenhuma se sentia tão à vontade com a música como a mais velha, Claire. 

— Ela anda solitária, não acha? — Flavian perguntou. 

— Acho que ela está focada em estudar, mas estou de olho nela. 

— Precisamos viajar, nós cinco. Talvez eu consiga alguns dias no início do verão. Poderíamos ir para a Escócia visitar Cornelia. Estávamos conversando sobre isso, ontem. 

— Ela e Tony virão para jantar? — Violet quis saber. 

— Não, eles e os garotos passarão com os Hearts. Ela apenas passou para dar um abraço em tia Georgia. 

— As coisas estão agitadíssimas nesta casa. — Violet fez um carinho no rosto dele. — Handel comprou fogos para depois do jantar. 

— Estou sabendo, Walter me contou. 

— E eu também soube… — Violet sussurrou — que Phillip Wallace será papai. 

Flavian abriu a boca em surpresa e sorriu em seguida. 

— Sério?

Sua esposa assentiu. 

— Magnolia estava eufórica, mas finja surpresa quando eles anunciarem no jantar. 

— Ora, ora. Phillip como avô. Isso vai ser bonito de se ver. 

— Vai. — Violet respirou fundo. — E… já que estamos tocando no assunto, não duvido que em breve sejamos nós nesse lugar. 

— Por quê?

— Patricia e o Sr. Price tem conversado. Está pronto para se tornar um sogro? 

Flavian soltou um riso leve. Quem era ele para impedir suas filhas de encontrarem a felicidade? Não se considerava o pai mais ciumento da cidade, mas esperava que, ao menos, as meninas se casassem por amor, como tinha acontecido com ele. 

— Estou, se o sujeito se provar digno de tomar meu coraçãozinho como esposa. 

— Vamos nos certificar disso — Violet garantiu. — Agora, já que deseja fugir da papelada, por que não vamos até a sala de música e tocamos um pouco com Claire? 

— Nós dois no piano e ela no violino? — Flavian ponderou. — Já faz um tempo que não fazemos isso. 

— Vamos! 

— Tudo bem, mas primeiro… — Ele a impediu que se levantasse. — Quero que me beije.

Violet levantou uma sobrancelha e envolveu o pescoço largo, puxando-o para si. Os lábios macios grudaram nos dele, ansiosos. Flavian aproveitou cada sensação e sentiu o coração dentro do peito dobrar de tamanho. 

Ali, nos braços da amada, ele teve — mais uma vez — a certeza de que era o homem mais feliz do mundo. 

O homem dela. Inteiramente. 

***


Sentada sobre o cobertor na grama fria e molhada, Claire Spencer olhou para o céu e para os inúmeros fogos coloridos que iluminavam a imensidão azul-escura. 

Encolhida pelo frio, ela ouvia as risadas das irmãs e dos primos, os gritinhos de felicidade dos membros da família, e sentia-se aquecer por dentro. 

Contudo, embora todos estivessem concentrados no espetáculo preparado por tio Handel, os olhos de Claire admiravam outra coisa: os casais unidos e com corpos entrelaçados, cada um do seu próprio jeito, demonstrando amor e afeto sem qualquer hesitação. 

Tia Poppy e tio Jasper sorriam, sentados um pouco à frente. Tio Paolo envolvia o corpo de tia Iris por trás e apontava para o céu, ambos gargalhando. Tio Phillip e tia Magnolia estavam enganchados, ao lado dos filhos que se provocavam. Tio Jack apoiou o queixo na cabeça de tia Abby, que relaxou as costas no peito dele. Tio Handel estava estufado de orgulho, e tia Jasmine piscou para ele, que a puxou pela cintura e roubou-lhe um beijo. Finalmente, seu pai sussurrou algo no ouvido de Violet e a fez sorrir, um sorriso tão belo que fez o coração de Claire acelerar. 

— É um belo espetáculo, não acha, querida? — Ela ouviu Lady Georgia dizer, ao seu lado. 

Claire se virou e concordou, com os lábios curvados. 

— Muito belo, vovó.

A mais velha olhou para cima, reflexiva. 

— O amor é mesmo maravilhoso. — Somente então, Claire percebeu que ela não se referia aos fogos de artifício. — Feliz Natal, meu bem. 

— Feliz Natal. — Claire se aproximou e a beijou no rosto. 

Ela apoiou a cabeça no ombro de Lady Georgia e encarou os casais mais uma vez. Em silêncio, Claire se perguntou se um dia alguém a olharia daquela maneira tão doce e sincera. Àquela altura, ela já havia aprendido que alguns desejos talvez nunca se tornassem realidade. Quem poderia garantir qualquer coisa? 

Claire inclinou o rosto e fitou o céu colorido. As luzes maravilhosas em tons de azul, vermelho e roxo, que formavam cascatas reluzentes e brilhantes entre as nuvens de inverno. Ela sorriu.

Não sabia dizer se se apaixonaria perdidamente um dia. Contudo, fosse o futuro qual fosse, naquela noite de Natal ela estava segura com os Spencers, envolvida em amor. 

E esse era o maior presente de todos. 

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