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Cena extra: Thomas e Charlotte

Carlisle, Inglaterra

1819


Thomas entrou em casa o mais rápido que pôde, se escondendo da chuva. Deixou o pacote que segurava sobre a mesa e fez uma careta. Sua perna doía devido ao esforço e ele passou a mão no músculo rígido da coxa, tentando desfazer o nó ali. 

— Ora, vejam quem resolveu aparecer. — Charlotte surgiu na sala de estar, um sorriso lindo iluminando seu rosto. 

Thomas arrumou sua postura e disfarçou a expressão de dor. Charlotte se preocupava demasiado com seu bem-estar, não importava que já estivessem juntos há meia década. Mas sempre fora assim, desde o minuto em que ele pisou na porta daquela adorável e pequena mulher teimosa, dizendo estar ali para casar-se com ela sem nem ao menos conhecê-la. 

Ele tinha vontade de rir toda vez que pensava naquele detalhe. 

— Olá, querida. Desculpe-me o atraso, mas a chuva demorou ceder. 

— Eu percebi. — Ela correu os olhos por ele. — Está bem?

— Sim, peguei minha casaca no alfaiate. 

— E ficou bom? — Charlotte se aproximou. 

— Sim, ficou. 

Charlotte abriu o pacote e analisou a peça, passando a mão delicada pelo tecido escuro. 

— Hum. Está bonito, mas nada se compara ao trabalho que Susie fazia nas casacas — ela comentou. 

— Bem, a Sra. Ross tem duas crianças agitadas para vigiar, agora. — Thomas foi até sua esposa. — É compreensível que tenha abandonado a profissão. 

Charlotte riu, porque fizera o mesmo nos quatro primeiros anos depois que Arthur nasceu. Agora, ela voltara a receber algumas encomendas de vestidos. O pequeno, de personalidade muito tranquila, costumava ficar no ateliê com ela, brincando com linhas ou lhe enchendo de perguntas. 

E por falar nele…

— Onde está Arthur? 

— Ele está brincando — Charlotte respondeu rápido. — Aqui, vista esta casaca e deixe-me ver como ficou em você. 

Thomas soltou um resmungo. 

— Char, deixe disso. O caimento ficou bom. 

— Quero ver — ela insistiu, entregando-lhe o pacote. 

Thomas suspirou. 

— Estou suado, vai sujar o tecido. 

— Eu aguardo você se banhar. — Ela voltou a sorrir. — Aqui, vou esquentar a água. Esperarei por você enquanto preparo o jantar. 

Thomas não queria brigar nem desagradá-la, então apenas cedeu. Mas ele estava com dor, não faria nada na pressa. 

Caminhou devagar até o quarto do andar de baixo, onde ele e Charlotte dormiam desde que se casaram. Não era tão grande quanto os quartos principais do primeiro andar, mas ao menos ele não precisava subir escadas com frequência. 

Ele deixou a casaca sobre a cama e sentou-se, tirando a prótese com cuidado. Charlotte entrou alguns minutos depois, com um balde de água nas mãos. 

— Aqui, querido. Quentinha. 

Ele apoiou uma mão sobre o colchão atrás de si e analisou a expressão enigmática da Sra. Baker. 

— Por que está tão engajada em me fazer vestir essa casaca?

— Porque quero ver se ficou bom ou não teremos tempo de ajeitá-la. Minha semana está cheia, Elizabeth chega em três dias com a família e o baile dos Trammel é no sábado. 

— Deus, você precisa descansar, mulher. 

Ela riu, fazendo o coração dele bater mais forte. Ele amava aquele som. 

— Vou preparar o jantar. 

Thomas assentiu. Ele pulou até a saleta de banho, lavou o corpo e os cabelos louros na tina, enxugou-se tentando não pensar na fisgada na perna ruim. Ficou de frente para o espelho e se vestiu. Primeiro as ceroulas, depois as calças, a camisa e o colete. Abotoou a casaca e inspecionou seu próprio reflexo. 

Como ele já sabia, não havia nada de errado ali. Bem, ao menos não aos seus olhos. Charlotte era bem capaz de enxergar coisas por fazer. Com um suspiro, Thomas saltitou mais uma vez até a cama, gemendo de dor ao sentar-se no colchão. Levou uns minutos colocando a prótese de volta. 

Finalmente, ele se pôs a caminho de volta até a sala. 

— Querida, pronto, pode… — Thomas parou de falar, ao encontrar Charlotte esperando por ele, trajada em seu vestido de baile azul. 

Maravilhosamente linda. 

Ela sorriu e inclinou a cabeça para o lado. 

— Vejam só, que homem bonito. 

Thomas espelhou seu sorriso, mas não entendeu. 

— Por que está em seu vestido? 

Ela corou um pouco, tirando uma mecha de cabelo escuro dos olhos verdes. 

— Eu… queria um momento a sós com você, hoje.

— E quanto a Arthur?

— Ele está com Susie. Vai dormir junto aos gêmeos. 

Thomas estava mais surpreso a cada minuto que se passava. 

— Você planejou isso?

Ela assentiu. 

— Sim. — Ela se aproximou, umedecendo os lábios. — Quero fazer um convite a você. 

Thomas levou a mão ao rosto dela e acariciou a bochecha macia. 

— Diga. 

— Quero que dance comigo. 

Ele travou, completamente. 

— Querida… você sabe que não pos…

— Ouvi você ontem. Arthur ouviu-nos conversando sobre o evento dos Trammel e perguntou a você o que era um baile. E eu ouvi o que disse quando ele perguntou se dançaria comigo. 

— Disse a verdade, que não podia. 

— Mas eu percebi a tristeza em sua voz, meu amor. Não disse nada, mas me fez pensar. E se… — ela ergueu os ombros — e se nossa dança for apenas diferente? E se tentarmos? Apenas você e eu?

Ele sentiu um nó na garganta de repente, uma emoção profunda. Sempre, desde o primeiro baile em que a levara, Thomas teve a vontade de tirar Charlotte para dançar. Sua condição não permitia isso, e ela tampouco se demonstrava sentida com o fato. Seria um desastre, ele sabia, ainda mais com a dor que sentia. Mas ali, em sua frente e com aqueles olhos brilhantes, Thomas jamais recusaria esse convite. 

Ele pegou a mão dela e deu um beijo na palma. 

— Ficarei honrado em dançar com você. 

Então, foi o que eles fizeram. 

Thomas e Charlotte se posicionaram no centro da sala, sobre o tapete azul. Assumiram uma posição de valsa, uma dança que parecia ser mais fácil de seguir. Eles se mexeram, com os passos um tanto atrapalhados, Thomas mancando e tentando se equilibrar. Ele até mesmo se esqueceu de olhar para ela no início, prestando atenção nos próprios movimentos. Mas quando ele levantou o rosto e encontrou o olhar verde… seu coração poderia explodir com o amor que ele viu ali. 

— Estamos dançando… — Charlotte disse, com a voz trêmula. 

Thomas sorriu, assentindo e puxando-a para um beijo. 

— Sim, estamos dançando — murmurou ele, contra os lábios macios. 

E eles dançaram um pouco mais, até que a dança se transformou em outra coisa. O desejo os envolveu, intenso. Charlotte passou os braços ao redor do pescoço dele, que a carregou como conseguiu até o sofá perto deles. Thomas não estava usando gravata, então foi mais fácil se livrar da casaca — que agora, devido à sua falta de delicadeza, ele não duvidava que precisasse, de fato, de ajustes. 

Charlotte o ajudou a tirar o colete e ele abriu os botões nas costas do vestido, despindo-a sem parar de beijá-la. 

Fizeram amor ali mesmo, urgentes e necessitados um do outro, unindo seus corpos com paixão. 

— Eu amo você… — Thomas sussurrava enquanto estocava, cada vez mais rápido e profundo. — Amo tanto você, Charlotte.

— Ah, Thomas… — ela arfou, seu corpo retesando de prazer em seus braços. 

Eles demoraram para voltar a realidade. Thomas nem ao menos sabia como conseguiam se encaixar naquele pequeno espaço do sofá. 

Ele se mexeu, procurando a melhor posição. A perna dolorida — enfim, ele lembrava-se dela — latejou e Thomas soltou um gemido de dor. 

— O que foi? Sua perna? — Charlotte perguntou, no mesmo instante. 

— Sim. 

— Está com dor? Forçamos demais? 

— Não, de jeito nenhum. Ela já estava doendo antes. 

Ela arregalou os olhos. 

— O quê? Por que não me disse que estava com dor? 

Thomas riu, encarando-a de volta. 

— Porque você me tirou para dançar.

— Ora, querido, mas se eu soubes…

Ele não a deixou terminar, puxando-a para um beijo. Sua língua provou cada canto da boca maravilhosa, até que ele tivesse certeza de que Charlotte estivesse devidamente distraída. Ela encostou a testa na dele e acariciou sua barba delicadamente. 

— Você deveria ter me avisado…

— Não perderia essa dança por nada no mundo, meu amor. Acredite, a dor ainda vale a pena.

Charlotte sorriu novamente, a ponta de seu dedo desenhando no rosto dele. 

— Precisamos ter mais momentos assim. Promete que teremos? 

Ele assentiu, sua mão subindo e descendo nas costas nuas. 

— Prometo. Promete que dançaremos mais? Agora que descobri que posso, farei disso algo rotineiro. 

— Prometo. — O rosto dela se iluminou de felicidade. — E eu cumpro minhas promessas. Aprendi com o melhor. 

Ele voltou a rir. 

Jamais poderia discordar. 


***


Nove meses depois, numa tarde de inverno, na pequena cidade de Carlisle, Charlotte deu à luz a uma menina, que nascera com os mesmos cabelos louros e olhos azuis do pai. 

Ela e Thomas decidiram chamá-la de Molly. Anos depois, quando a garotinha perguntasse como havia nascido, Charlotte responderia à filha que ela era o lindo e perfeito fruto do que começara com uma dança. 

Uma que se repetiu muitas vezes durante os anos que se seguiram. 

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