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Cena extra: Winston e Amelia


Mayfair, Londres

1824

Amelia observou Charlie tamborilar os dedos pequenos sobre a mesa. A expressão do garoto estava concentrada, como se ele já fosse um verdadeiro lorde inglês e não um menino de oito anos.

— Se eu mover minha rainha — disse ele —, deixarei aberto para que a senhora me ataque com o bispo.

Amelia assentiu, tentando não rir.

— Certo, boa observação.

— Contudo — ele ergueu um dedo —, se eu fizer… — Charlie apertou os olhos para o tabuleiro, parando de falar.

Amelia sabia ao movimento que ele estava se referindo. Mover o cavalo era mais sábio no caso dele, pois ela não teria outra opção para salvar sua própria rainha e teria que bolar uma nova estratégia.

— Quem ganhou? — Victoria, a caçula, apareceu de repente na sala de visitas dos Maxwell.

— Olá, mocinha. — Amelia tocou na ponta do nariz da pequena. — Ninguém ainda, Charlie está pensando.

— Quem ganhou? — a pergunta dessa vez veio de Winston, que entrou na sala logo atrás da filha.

— Ninguém ainda, Charlie está pensando — Victoria respondeu, fazendo Amelia rir.

— Charlie pensaria melhor no silêncio — o menino afirmou, e estendeu a mão sobre o tabuleiro, ainda muito reflexivo.

Amelia lançou um olhar para Winston, que piscou para ela com um sorriso escondido de satisfação. Seu coração acelerou no mesmo instante, como sempre acontecia quando ele jogava aquele charme de galã para cima dela.

Mais de dez anos após se casarem, haviam construído uma linda família, em um lar cheio de amor. Charlie era basicamente uma cópia do pai, com cabelos escuros, olhos castanhos e a personalidade de Amelia. O garoto com aquela idade já falava francês e um pouco de alemão, aprendera a jogar xadrez e tocava o violino. Mas ele era quieto e observador, gostava de ficar reflexivo. Victoria, por outro lado… céus, aquela menina veio como uma peça e tanto. Era parecida fisicamente com Amelia, mas falava pelos cotovelos e tinhas respostas afiadas — sua melhor amiga era ninguém menos que Phillipa, a outra tagarela.

Victoria daria dores de cabeça a Winston um dia, Amelia tinha certeza. Em sua época de debute, não duvidava que a filha da antiga solteirona se tornasse a joia da temporada.

E pobre do rapaz que quisesse se casar com ela. Amelia precisaria ficar atenta para que Winston não exagerasse em seu instinto protetor.

— Aqui. — Charlie movimentou finalmente a peça. — Sua vez, mamãe.

Amelia voltou a olhar para o tabuleiro e… minha nossa, ele havia movido a torre?

— Hum. — Ela encarou as peças espalhadas, completamente surpresa pela jogada do menor.

Hum… eu conheço esse murmúrio — Winston afirmou.

— O que foi? — Victoria se virou para o pai. Ele a pegou no colo e sussurrou algo em seu ouvido, que Amelia não conseguiu entender. — Hihi — foi a resposta da menina.

— Não quero cochichos no meio de minha partida. — Amelia franziu a testa.

— Você está encrencada! — Victoria riu, delatando o conde, que não pareceu se importar.

Amelia apertou os olhos para ele e então olhou para Charlie, que sorria com satisfação.

Pequeno abusado...

— Você planejou isso — Amelia afirmou.

Charlie concordou com um aceno de cabeça.

— Eu quero ganhar.

— Eu também quero ganhar — Amelia retrucou.

— Mas apenas um pode ganhar — Winston apontou, ele e Victoria atentos aos dois. — Quem será?

— Charlie! — Victoria gargalhou. Winston fez o mesmo.

Amelia segurou-se o que pôde para manter a seriedade.

— Silêncio. — Ela levantou uma mão. — O jogo apenas acaba quando acabar.

Alguns minutos se passaram e outras quatro jogadas foram feitas. Quando Charlie finalmente movimentou a rainha e atacou, Amelia suspirou, frustrada, se dando conta de que caíra como um patinho na armadilha de seu filho.

— Xeque-mate, mamãe. — Ele ergueu o queixo, orgulhoso.

— Humpf. — Amelia relaxou o corpo na cadeira e observou enquanto ele lhe estendeu a mão para um cumprimento polido.

— Não se sinta mal. A senhora, ao menos, tentou.

Amelia soltou um ruído falsamente irritado e se levantou, tomando o rosto dele entre as mãos.

— Eu estaria muito brava se não estivesse tão orgulhosa! — Ela beijou sua bochecha, adorando o som da gargalhada do garoto. E então se virou para Victoria, ainda no colo do pai, e fez o mesmo com ela. — E a senhorita me traiu! Torceu contra mim.

Victoria pulou no colo dela, que a pôs no chão em seguida.

— Agora podemos brincar no parque? — A menina se virou para o irmão mais velho. — A Sra. Jackbson está nos esperando. Vamos fazer um piquenique!

— Podemos, mas tenho que tirar meu colete, porque ele é novo e não quero sujá-lo. — Charlie se levantou e sorriu para os pais.

— Meus parabéns, meu filho. Excelente partida. — Winston bagunçou o cabelo dele. — Cuidado no parque, obedeçam a Sra. Jackbson e se atentem à grama, que ainda está molhada da chuva de ontem.

Os dois pequenos se despediram e saíram correndo murmurando coisas incompreensíveis.

— Parece que perdeu seu posto, Lady Maxwell. — Winston encarou Amelia e cruzou os braços nas costas.

— Bem, o que posso dizer? — Amelia deu de ombros. — Ele é meu filho. Era apenas uma questão de tempo até me superar. — Ela começou a arrumar as peças no tabuleiro mais uma vez.

— Isso é verdade. — Winston ficou logo atrás dela. — Mas acho que sei como fazê-la se sentir melhor.

Amelia estremeceu ao sentir as mãos grandes envolverem sua cintura.

— Ah, sabe?

— Uhum… — Os lábios de Winston desceram pela curva do pescoço dela.

— E as crianças? — Amelia disse, embora tivesse fechado os olhos e dado mais acesso ao marido.

— Estão com a Sra. Jackbson. Os passeios no parque não costumam ser tão rápidos. — Winston subiu uma mão e tomou o seio dela em concha. — Vamos lá para cima e aposto que consigo tirar essa sensação de derrota da você antes do horário do chá.

Amelia largou o tabuleiro como estava, se virou, envolveu o pescoço do marido e o beijou, apaixonada. As línguas brincaram com familiaridade e ela sentiu-se toda desperta, o coração completamente preenchido dentro do peito.

— Aposta, é?

Winston concordou, mordendo o lábio inferior dela. Amelia não teve outra escolha a não ser permitir ser guiada para o quarto deles.

Mas ela sabia que era uma boa escolha.

Afinal, apostas sempre davam certo naquela casa.

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