top of page

“Meu amor”

Londres, 27 de outubro de 1818

 

Assim que o casamento de Flavian acabou, os integrantes da família Spencer retornaram à Garden’s House para continuarem reunidos, ainda que sem a presença dos noivos. 

Georgia Alice pediu licença para se refrescar e caminhou até seu quarto. Entrou, encostou a porta e tirou os brincos pesados. Seus olhos se depararam com a pintura de Wallace, sorrindo e mais jovem, que ela mantinha na mesinha de cabeceira do seu lado da cama. 

— Flavian Walter se casou, meu amor — disse ela. — Você estava certo, o amor deles foi maior do que qualquer outra coisa. 

A pintura pareceu sorrir, embora fosse uma tolice pensar que sim. 

Contudo, talvez aquele fosse um bom momento para reler sua carta. Nas últimas vezes, ela conseguira fazê-lo sem chorar. Mas se chorasse naquele dia tão feliz, qual era o problema? 

Georgia abriu a gaveta e puxou o papel precioso de dentro. Alisou a textura áspera antes de abri-lo, vagarosamente como fazia todas as vezes. Sempre que encarava aquele envelope, pensava nos anos que vivera ao lado do marido. Nos cinco filhos que tiveram, na dor que fora perder um deles ainda criança, na alegria de ver os outros crescerem e encontrarem o amor. 

Amor. 

Sempre foi esse o sentimento naquela casa. Sempre foi esse o sentimento que ela enxergava, cada vez que encontrava os olhos de Wallace brilhando para ela, ainda que fosse por uma pintura. 

Com um suspiro, Georgia passou a ler a carta: 

 

“Minha doce Georgia, 

Meu amor. 

Deixei sua carta para escrevê-la por último. Que curioso, considerando que nunca escrevemos um para o outro. Preferimos os beijos e os encontros no jardim, não é mesmo? Meus lábios sempre demonstraram melhor meu amor do que minhas palavras. 

Assim que o doutor me disse que meus dias seriam breves, pensei em escrever as cartas para me despedir propriamente. Perdoe-me, querida, por ocultar isso de você, mas quero que nossos últimos dias sejam cheios de alegria e não de medo. Lidarei sozinho com essa parte difícil. Bem, eu e Phillip, a quem confiei meu verdadeiro estado. 

O que me lembra que nosso garoto precisa de amor. Compreensão. Se eu já tiver partido, estenda a mão a ele e o ajude a retornar. 

Eu escrevi oito cartas. Uma a você, e uma a cada uma das crianças. Você pode lê-las se desejar. Phillip, Jasmine, Cornelia e Jack, devem receber a deles assim que se casarem. Até Jack?, você deve estar se perguntando. Sim, mesmo Fabius. Aquele devasso encontrará o amor, tenho certeza. Jasmine voltará a sorrir como sempre admiramos, dê tempo a ela. Poppy e Iris devem lê-las após os nascimentos de seus filhos. E Flavian… tenho em mim uma certeza de que o sol dos Spencers voltará a brilhar, um dia. Toda chuva passa. Deixarei à senhora a difícil tarefa de escolher o momento apropriado para entregar-lhe. 

Confio em você, minha linda. 

Não direi adeus, pois nunca a deixarei. Me recuso a fazê-lo, como o teimoso que sou. Mesmo que a vida siga, que você encontre a felicidade em outros braços com um palerma qualquer (seja exigente, me faça esse favor), estarei para sempre em seu coração. 

Pense em mim com alegria, querida. Pense em mim com toda a felicidade que passamos esses últimos trinta anos vivendo. Se sentir saudades, olhe para nossos filhos e eu estarei ali. Eles são metade de mim e metade de você, sempre poderá me abraçar quando abraçá-los. Brinque com nossos netos! Eles serão muitos, você verá.

Eu sempre a amarei. Sempre. 

Agora, vou descansar e finalmente reencontrar nosso pequeno.  

Não chore. Estou sorrindo agora com Walter ao meu lado, consegue ver? 

Com amor, 

Seu Wallace.”

Georgia sentiu uma lágrima escorrer, e limpou-a. As mãos trêmulas voltaram a dobrar o papel, seu bem material mais precioso além da família que a aguardava do lado de fora. Que homem ardiloso era aquele com quem se casara…

— Sabichão…

— Mamãe?

Ela levantou o olhar, e sorriu. 

— Desculpe-me, querida. Vim contar ao seu pai que seu primo retornou. 

Poppy fungou imediatamente. 

— Ele deve estar sorrindo agora — afirmou a filha. 

— Definitivamente. Wallace adorava estar certo. — Ela encontrou o olhar de Poppy. — Você sempre foi a mais parecida com seu pai. Sabia disso?

Poppy assentiu. 

— Eu não deveria dizer isso por que provavelmente será uma menina, mas… se eu tiver um menino, Jasper e eu decidimos chamá-lo de Wallace. 

Georgia se emocionou mais uma vez. 

— E lá vai seu pai, sorrir de novo. — Ela espantou a saudade. — Vamos voltar para a sala e brindar por Flavian, agora. — Georgia fez um gesto com a cabeça. 

Sua filha seguiu no corredor e Lady Spencer respirou fundo. Encontrou a figura do marido na pintura mais uma vez e sorriu. Faria o que ele lhe dissera. Viveria todo aquele amor que somente os Spencers tinham para oferecer. 

— Estou sorrindo também, bonitão. Consegue ver? — murmurou ela. 

A resposta veio como uma batida mais forte do lado esquerdo do peito, um sussurro certeiro. 

Sim, querida. 

Eu consigo. 

bottom of page